Carla Viana Coscarelli
1 - O que
caracteriza o hipertexto? Quais são as suas especificidades?
A característica principal do hipertexto digital é
ter links, ou seja, é ser um texto que contém
caminhos que levam, com um clicar do mouse, a outros textos. Assim, a idéia de
todo ou de completude fica a critério do leitor. O texto acaba onde ele se
sentir satisfeito com a leitura. Quando a gente vai navegar na internet e vê palavras marcadas de azul, ícones ou botões
em que podemos clicar para encontrar mais informações, estamos num hipertexto. Sites são normalmente hipertextos, mas um hipertexto pode
ir muito além de um site. A noção de texto agora vai
além da idéia tradicional do material que foi produzido por um autor num número
de páginas que ele define onde começa e onde acaba. Isso não implica, no
entanto, que o leitor faça esse percurso todo e na ordem apresentada no
material impresso. O internauta, assim como o leitor
de jornal, vai de um lado para outro, em busca dos seus interesses. Não sei se
há tantas novidades assim no universo digital. O que acontece é que tínhamos
uma visão muito equivocada do processo de leitura, acreditando que todo e
qualquer leitor em toda e qualquer situação sempre leu os textos do início ao
fim, sem pular partes, sem ir de um material para o outro. Não é assim que
lemos todos os textos. O leitor não é passivo assim e o hipertexto só reforça e
facilita essa dinâmica de leitura, que sempre existiu.
2- O que
caracteriza os gêneros virtuais (ou digitais)?
Se já é difícil caracterizar gêneros não virtuais que
circulam em nossa sociedade há anos, imagine então como é complicado
caracterizar gêneros virtuais que são novidades. Acredito na noção de gêneros
como sendo um conjunto de características que alguns textos costumam adquirir
quando passam a ser freqüentemente usados em uma determinada
situação comunicativa. Ou seja, o uso acaba por estabelecer um padrão e
algumas regras para aquele texto. Isso é uma coisa construída com o tempo e é
negociada entre os usuários. Mas devemos ficar atentos para o fato de que essas
características podem variar muito. Gênero não é essa coisa muito certinha e
bem definida que muita gente acha que é. Muito pelo contrário, as variações são
grandes. E dependem de muitos fatores, entre os quais podemos citar o lugar de
publicação daquele texto. Um texto pode mudar de gênero, dependendo de onde ele
foi publicado. Falar de gênero é muito complicado. No universo virtual ou
digital, ainda não tivemos muito tempo para as negociações entre os usuários.
Elas ainda estão sendo feitas, a linguagem ainda está
sendo construída e os gêneros estão sendo criados. Por mais que tenhamos em
mente um modelo de e-mail, por exemplo, os e-mails que recebemos ainda variam
enormemente!
3- O que
diferencia a linguagem usada na internet das outras
manifestações lingüísticas?
Cada situação exige uma linguagem diferente. Não
falamos do mesmo jeito em uma reunião formal de trabalho e em uma conversa
descontraída com os amigos em um bar, não costumamos usar os jargões da nossa
área de trabalho em conversas com leigos, e assim por diante. Na internet acontece a mesma coisa.
Num chat, por exemplo, a digitação tem de ser rápida
e, por isso, várias abreviaturas são usadas, além do mais, a conversa é
informal, o que autoriza e estimula o uso de variantes não-formais da língua.
Na verdade, o uso de uma variante formal do português não é bem aceito em um chat. O chat é uma uma fala-escrita e isso faz com que elementos da fala e da
escrita se misturem criando uma novas formas de uso da
linguagem. Nesse ambiente, a noção de erro e acerto é muito diferente daquela
das gramáticas tradicionais.
4- Apesar de
toda a diversidade lingüística nacional (variações regionais), percebemos que
os recursos usados para comunicação entre internautas
parecem seguir alguns padrões, apesar da aparente "desordem"
lingüística. Os internautas de todo o Brasil
conseguem se compreender perfeitamente, pois utilizam os mesmos sinais
gráficos, abreviaturas, emoticons, etc. Como a senhora explica esse fenômeno?
Isso é muito interessante. Os internautas
estão criando uma linguagem diferente, como sempre aconteceu nos grupos
sociais. Surfistas, jogadores de futebol, músicos, médicos, lingüistas, meninos
de rua, traficantes, ou seja, todos os grupos sociais acabam usando uma
linguagem que tem elementos muito particulares. E essa linguagem é dinâmica.
Ela se modifica com o tempo e entre os falantes. É isso que está acontecendo
também na internet. Não há uma desordem lingüística,
de jeito nenhum. Há uma linguagem que está sendo criada, entre os internautas, que varia de acordo com o grupo, que tem suas
regras e que (como qualquer língua em uso) vai se modificar eternamente para
atender às necessidades (e aos caprichos) dos usuários. A desordem é a
impressão que tem quem ainda não se acostumou com aquela determinada linguagem.
Num segundo olhar mais cuidadoso, é possível ver que os internautas
usam um sistema que tem suas regras e que está muito longe de ser um caos.
5- Com o
surgimento dos "e-books", a senhora acredita
que haverá a substituição gradual dos livros tradicionais de papel, até a sua
completa extinção, ou "nada substitui o livro"?
É difícil uma pessoa que adora livros dizer que os
livros vão acabar. Mas acredito que a informática veio para somar e não para
substituir. O e-book, então, será mais uma opção para
o leitor. Do mesmo jeito que a televisão não acabou com o rádio, e que o vídeo
e o DVD não acabaram com o cinema, acredito que podem
haver transformações nos livros e revistas, assim como houve no rádio e no
cinema. Não acredito que o livro vá deixar de existir num futuro próximo.
6- A língua
usada na internet é uma modalidade falada por escrito
ou uma modalidade escrita com erros ortográficos? Como a senhora compreende os
recursos usados nas manifestações eletrônicas?
Acho melhor falar em adequação do
que em erro. O que podemos chamar de erros seriam os problemas de digitação,
que são muito comuns em chats, e-mail, blogs e tal. Não podemos dizer que vc,
blz, entre tantas outras abreviaturas usadas na internet, são erro. Temos é uma tentativa de aproximar a
escrita da fala. Muitas vezes precisamos digitar na velocidade da fala, que é
muito mais rápida que nossa capacidade de escrita, e essa necessidade de
rapidez vai fazer com que os usuários criem e utilizem recursos que agilizem a
escrita. Outras vezes usamos recursos para imitar a fala e para suprir a falta
dos gestos, das expressões faciais e das entonações, daí o uso de emoticons (J, L, etc.), conjuntos pontuacionais
(!!!!!!!!!!!!, ?!?!?!?!), onomatopéias (huummmm, hehehe), entre outros. Não dá para falar de erro na
concepção tradicional aqui. Podemos falar, no entanto, de inadequação. Um
banco, não poderia, por exemplo, fazer um site usando
a linguagem de chat, caso queira ser visto como uma
instituição séria e confiável. Um site de humor, por
sua vez, não pode usar a mesma linguagem usada no site
de um banco. A linguagem também deve variar de acordo com a faixa etária do seu
público-alvo. Isso acontece em qualquer texto e em todos os meios de comunicação.
7- E quanto ao
e-mail? Ele pode ser considerado um gênero virtual/digital?
Quais as características que o definem como tal?
O e-mail é um gênero digital, mas conforme eu disse,
é muito difícil caracterizar um gênero, porque em outro suporte ou ambiente ele
pode passar a ser outro gênero. O e-mail geralmente tem uma abertura
(cumprimento ou nome), um corpo (mensagem) e um fechamento (despedida), tal
como acontece nas cartas. Mas, num entanto, não ter abertura e/ou fechamento. E nem por isso deixa de ser e-mail. Pode
ser um convite, pode ser um bilhete, pode ser um ofício e continua a ser também
um e-mail. A noção de gênero é muito complexa e precisa ser pensada, não como
um conjunto fixo de traços que caracterizam um texto como pertencendo a um único
rótulo, mas como características prototípicas ou comuns a alguns textos, porém
não necessariamente obrigatórias. O suporte ou ambiente em que o texto aparece
também é um fator muito importante na identificação do gênero de um texto.
8- O que é
"Netiqueta"?
É uma tentativa de colocar ordem na casa. As netiquetas são instruções para uma boa convivência na internet. Elas ensinam ao usuário que letras maiúsculas
significam que ele está gritando, que não é de bom tom na internet
ficar corrigindo o português de outras pessoas, que ele deve evitar repassar “correntes”, “alertas”, “spam”
e “propagandas”, entre outras coisas que mesmo quem não leu as netiquetas acaba aprendendo depois de se familiarizar com a
internet.
O desrespeito a netiquetas
pode deixar muitos usuários furiosos ou incomodados, portanto, é sempre bom
conhecê-las.
9- O surgimento e utilização cada vez mais ampla do e-mail sugere
o fim das cartas via correio?
As cartas podem não acabar, mas certamente serão em menor número. O e-mail é mais rápido, mais prático
e mais barato que as cartas. Isso faz com que a maioria das pessoas opte por
eles. A demanda de entrega de mercadorias compradas na internet
tem aumentado muito nos últimos anos. Isso também vai gerar transformações no
serviço postal.
10- Existe um
padrão para a redação/organização do texto em
e-mails?
Normalmente os e-mails começam com o nome do
destinatário, ao qual se segue o corpo da mensagem e o nome do emissor. Mas
isso não significa que todos os e-mails tenham de seguir rigorosamente essa
organização. Freqüentemente os nomes do destinatário e do emissor são omitidos,
uma vez que essas informações aparecem no cabeçalho dos programas de
gerenciamento de mensagens. Quanto à linguagem, o grau de formalidade do texto
vai variar dependendo da situação de comunicação e do tipo de relacionamento
existente entre os interlocutores. Numa situação de trabalho, os e-mails
costumam ser um pouco mais formais que numa troca de
mensagens entre amigos, e podem até haver e-mails muito formais, como numa
troca de mensagens institucionais. No entanto, em sua grande maioria, os textos
de e-mails não são formais.
11- Quais são
as perspectivas para o futuro quanto ao uso da internet
como "canal" para criação de novos gêneros ou formas de comunicação?
Ótimas. A internet é um
universo muito produtivo e muito livre. Os blogs são
uma prova disso. A internet, pela sua agilidade e
vasto alcance, estimula a comunicação. As pessoas se sentem à vontade para se
apresentar, para manifestar suas crenças e interesses, para expor sua vida
pessoal ou profissional, bem como para exibir suas produções e criações. A internet já se configurou como fonte de informação e, por
isso, cada vez mais informação tem sido disponibilizada na rede por
pesquisadores ou centros de pesquisa, por instituições, empresas ou por
iniciativas pessoais. E tudo isso é feito de formas e estilos diferentes, e não
raro, muito criativamente.
A internet
também tem muito a contribuir para a educação. Cursos a
distância, quando bem planejados e quando bem equipados, ou seja, quando contam
com os recursos tecnológicos necessários e tanto professores quanto alunos são
capazes de usar esses recursos que a informática disponibiliza, têm se mostrado
muito eficientes. Acredito muito nesta modalidade de educação como uma forma de
dar acesso à informação a comunidades carentes ou fora dos grandes centros
urbanos.
Algumas pesquisas recentes mostram também que
hipertextos, devidamente planejados e organizados, têm muito a contribuir para
ambientes de ensino-aprendizagem, uma vez que estimulam a leitura auxiliando o
trabalho do leitor.
A internet e a informática
de modo geral têm um grande potencial que, ao ser explorado, vai gerar novas
situações de comunicação, que por sua vez vão resultar em novos gêneros, ou
na recriação dos que já temos.