É
licenciado em Letras pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Penápolis
(1970), tem mestrado em Lingüística pela Universidade de São Paulo (1980)
e doutorado em Lingüística pela Universidade de São Paulo (1983). Fez pós-doutorado
na Ecole des Hautes Etudes en
Sciences Sociales (Paris)
(1983-1984) e na Universidade de Bucareste (1991-1992). Atualmente é Professor
Associado do Departamento de Lingüística da FFLCH da Universidade de São Paulo.
Foi membro do Conselho Deliberativo do CNPq (2000-2004) e Representante da
Área de Letras e Ligüística na CAPES (1995-1999).
Tem experiência na área de Lingüística, com ênfase em Teoria e Análise Lingüística,
atuando principalmente nos seguintes temas: enunciação, estratégias discursivas,
procedimentos de constituição do sentido do discurso e do texto, produção
dos discurso sociais verbais.
LETRAMAGNA: Poderíamos dizer que
a Lingüística Textual se firmou como uma ciência autônoma, deixando de ser
apenas uma subárea da ciência lingüística – se isso realmente aconteceu, a
partir de qual referencial?
FIORIN:: Melhor do que falar em Lingüística Textual, que é apenas uma das teorias
que estudam o texto, seria falar
LM: Qual a noção mais
coerente para “texto” atualmente?
FIORIN: Como
se disse acima, os Estudos do Discurso e do Texto criaram diferentes objetos
teóricos, porque cada um deles se dedica a um aspecto dessa realidade “multiforme
e heteróclita” que é a linguagem. Isso não é um defeito das teorias, mas é
uma característica do discurso científico. Ele, ao contrário do discurso religioso, que pretende explicar tudo, busca elucidar
um aspecto da realidade. Cada objeto teórico vê o texto de maneira diferente.
Vou dar uma definição a partir da Semiótica Discursiva e Narrativa: é uma
unidade de manifestação, que constitui um todo organizado de sentido, delimitado
por dois brancos.
Se
ele é uma unidade de manifestação significa que é a manifestação de um conteúdo
por um plano de expressão. Isso quer dizer que um texto não é apenas manifestado
verbalmente, isto é, por meio de uma língua natural, como o inglês, o francês,
o árabe, o português. Na verdade, ele pode manifestar-se visualmente, como
uma pintura, por meio da linguagem verbal, visual e musical,
como o cinema, por meio da linguagem verbal e visual como nos quadrinhos.
Assim, um romance é um texto; um trecho de um romance é um texto; uma poesia
é um texto; uma escultura é um texto; uma ópera é um texto.
Dizer
que é um todo organizado de sentido implica afirmar que o sentido de uma parte
depende do sentido das outras. No caso dos textos verbais, isso significa
que ele não é um amontoado de frases, ou seja, nele as frases não estão simplesmente
dispostas umas depois das outras, mas mantêm relação entre si. Isso quer dizer
o sentido de uma frase depende dos sentidos das demais, o sentido de uma parte
do texto depende do sentido das outras.
Um texto é delimitado por dois brancos, ou seja, dois espaços de não
sentido. Os espaços em branco antes e depois de um texto verbal são seus limites.
A moldura de um quadro delimita o espaço de sentido e o de não sentido. O início de um filme e a palavra fim separam o espaço do texto fílmico do espaço do não sentido.
LM: Quais foram os marcos da elaboração de uma Lingüística do Texto, se
é que podemos falar em “uma”, visto que há uma constante instabilidade teórica
atualmente entre os estudiosos do texto?
FIORIN: Como
expliquei acima, a instabilidade teórica não é um defeito dos estudos discursivos
e textuais, mas é a própria condição do discurso científico. Por isso, há
diferentes teorias de Estudos do Discurso e do Texto. No entanto, parece-me
que se pode dizer que a preocupação com as unidades acima da frase tem como
referência inicial os estudos de Benveniste a respeito da enunciação. Esta
foi definida por ele como a instância de mediação entre a língua e a fala.
O resultado da enunciação era o discurso e não a fala nos termos concebidos
por Saussure. A partir daí, diferentes teorias têm distintos marcos de elaboração.
Por exemplo, a Semiótica Narrativa e Discursiva tem origem na Semântica estrutural e demais obras de
Algirdas Julien Greimas; a Análise do Discurso de linha francesa fundamenta-se
nas obras de Pêcheux e assim sucessivamente.
LM: Com relação aos estudos do texto e do discurso, quais as relações entre
discurso, enunciação, fatores sócio-históricos e o texto enquanto objeto de
análise?
FIORIN: O discurso
é produto de uma enunciação, que é realizada por um dado sujeito, num dado
tempo e num determinado lugar. Por isso, o discurso é integralmente lingüístico
e integralmente histórico. O texto é a manifestação do discurso. Portanto,
analisar o texto é estudar um discurso produzido por uma enunciação radicada
numa dada formação social, num determinado momento da história. As teorias
do discurso, no entanto, dividem-se, grosso modo, em dois blocos, segundo
a maneira que analisam os fatores sócio-históricos que determinam o processo
enunciativo. O primeiro é constituído por aquelas que pensam que é preciso
conhecer as circunstâncias em que o texto foi produzido: explicar quem é seu
autor, em que época foi escrito, em que lugar foi produzido. Em suma, contar
histórias acerca de suas condições de produção. No entanto, se isso fosse
necessário para desvendar o sentido do discurso, certos textos, principalmente
os produzidos na Antigüidade, não teriam sentido. Tomem-se, por exemplo, a
Ilíada e a Odisséia. Não sabemos quem é seu autor,
pois muitos estudiosos afirmam que a epopéia homérica é uma criação coletiva,
que foi, mais tarde, compilada e fixada. Mas mesmo que tenha sido escrita
por Homero, não sabemos quem é realmente esse homem, não conhecemos as circunstâncias
de sua produção épica. E os textos egípcios? Sabemos muito
pouco a respeito das condições de sua produção. E, no entanto, eles
ajudam-nos a desvendar a cultura faraônica.
O segundo grupo de teorias é daquelas que afirmam que todo discurso
é constituído a partir de outro discurso, é uma resposta, uma tomada de posição
em relação a outro discurso. Isso significa que todo discurso é ocupado,
atravessado, habitado pelo discurso do outro e, por isso, ele é constitutivamente
heterogêneo. Assim, um discurso deixa ver seu direito e seu avesso.
Nele, estão presentes pelo menos duas vozes, a que é afirmada e aquela
em oposição à qual se constrói. Quando se afirma Mulheres e homens são idênticos em capacidade,
esse enunciado deixa ver duas vozes: de um lado, a que preconiza a igualdade
dos homens e das mulheres; de outro, aquela que afirma a superioridade dos
homens sobre as mulheres. Numa sociedade não machista, o enunciado acima sequer
faria sentido. Essa propriedade do discurso é o que se poderia chamar o dialogismo constitutivo: a palavra do outro é condição
necessária para a existência de qualquer discurso, sob um discurso há outro
discurso. Por ser dialógicos é que os discursos são
históricos. Sua historicidade não é algo externo, que é dado por referências
a acontecimentos da época em que foram produzidos ou por curiosidades a respeito
de suas condições de produção (por exemplo, a biografia do autor ou relatos
do período em que viveu). A historicidade dos enunciados é captada no próprio
movimento lingüístico de sua constituição. É na percepção das relações com
o discurso do outro que se compreende a História que perpassa o discurso.
Com a concepção dialógica, a análise histórica dos textos deixa de ser a descrição
de uma época, a narrativa da vida de um autor, para se transformar numa final
e sutil análise semântica, que vai mostrando aprovações ou reprovações, adesões
ou recusas, polêmicas e contratos, deslizamentos de sentido, apagamentos,
etc. A História não é exterior ao sentido, mas é interior a ele, pois ele
é que é histórico, já que se constitui fundamentalmente no confronto, na contradição,
na oposição das vozes que se entrechocam na arena da realidade. Captar as
relações do texto com a História é apreender esse movimento dialético de constituição
do sentido.
LM: De que forma os novos conhecimentos lingüísticos,
principalmente os incluídos no campo da lingüística textual, podem contribuir
para o aprimoramento de operações didáticas no ensino da língua portuguesa?
FIORIN: O objetivo
central do ensino de português nos níveis fundamental e médio é fazer do aluno
um leitor eficaz e um competente produtor de textos. Isso é condição necessária
para o desenvolvimento de suas plenas potencialidades humanas, para o exercício
da cidadania, para o prosseguimento dos estudos em nível superior e para a
inserção no mercado de trabalho. Ensina-se a redigir períodos, já que a análise
sintática é uma teoria do período, e solicita-se que o aluno escreva textos,
como se estes fossem uma grande frase ou um amontoado de
frases. No ensino da leitura, as questões de interpretação de textos,
em geral, não passam de solicitações para localizar informações na superfície
textual. Nos livros didáticos, com raras exceções, não há questões que levem
ao entendimento global do texto e à compreensão dos mecanismos de constituição
do sentido. O texto é um todo organizado de sentido, o que significa suas
partes se inter-relacionam, ou seja, que ele possui uma estrutura. Além de
ser um objeto lingüístico, é um objeto histórico. Isso quer dizer que o sentido
do discurso se constrói por meio de mecanismos intra e interdiscursivos, ou
seja, o sentido organiza-se por meio de uma estruturação propriamente discursiva
e pelo diálogo que mantêm com outros discursos a partir dos quais se constitui.
Paul Ricoeur dizia que o sentido do texto é criado
no jogo interno de dependências estruturais e nas relações com o que está
fora dele. Esses dois aspectos não se excluem, mas se complementam. O ensino
do texto precisa fundamentar-se no estudo cuidadoso de mecanismos intra e
interdiscursivos de constituição do sentido. Sem isso, ensina-se a ler um
texto determinado e não a ler qualquer tipo de texto. A explicitação dos mecanismos
intra e interdiscursivos de constituição do sentido do texto, objeto das teorias
do discurso e do texto, contribui para melhorar o desempenho do aluno no que
concerne à compreensão e à produção do texto.
LM: Quais as principais
contribuições dos estudos brasileiros na área?
FIORIN: São muitas
as direções teóricas dos Estudos do Discurso e do Texto, para, nos limites
desta entrevista, analisar as contribuições dos estudos brasileiros na área.
Por isso, falarei das contribuições no âmbito da Semiótica Narrativa e Discursiva.
Uma das principais contribuições dos semioticistas
brasileiros foi a de estudar, nos quadros teóricos da Semiótica, a questão
da historicidade do discurso. Além disso, seus últimos esforços teóricos têm
sido o de teorizar a dimensão do sensível, seja na Semiótica das Paixões,
seja na Semiótica Tensiva. Além das contribuições teóricas, os estudos semióticos
têm cooperado no desenvolvimento de métodos para o ensino/aprendizagem da
competência discursiva, em língua materna e em segunda língua; bem como, para
que se conheçam melhor, por meio dos discursos, a cultura e a sociedade brasileiras.
LM: Quais as principais
direções teóricas a que o Brasil caminha nos estudos sobre o texto?
FIORIN: Seis
são as orientações teóricas mais seguidas no Brasil: a Semiótica Narrativa
e Discursiva, a Análise do Discurso de linha francesa, a Análise Crítica do
Discurso, a Análise da Conversação, a Lingüística Textual e o que poderíamos
chamar a Análise Dialógica do Discurso, que se fundamenta nos trabalhos de
Bakhtin.
LM: Segundo sua visão,
quais são os limites da Lingüística do Texto e quais são suas perspectivas
para o futuro?
FIORIN: De novo,
prefiro falar numa corrente dos Estudos do Discurso e do Texto, a Semiótica
Narrativa e Discursiva. Creio que ela deve caminhar no sentido de estudar
mais detidamente a dimensão sensível do discurso, aproximando-se cada vez
mais da Retórica e herdando-a. Por outro lado, é preciso teorizar, de maneira
mais fina, os diferentes objetos textuais criados pelos novos meios de comunicação.
Esses objetos são sincréticos, ou seja, manifestam o sentido por meio de diferentes
linguagens.