Paulo de Tarso Galembeck
Professor da Universidade Estadual de Londrina
Letramagna: Quais foram as principais contribuições dos pesquisadores brasileiros
no campo da Língua Falada e Análise da Conversação?
Galembeck: Os estudos de Língua Falada (LF) e Análise da Conversação (AC) desenvolveram-se no Brasil a partir de 1984, por iniciativa dos pesquisadores Dino Presti (USP, atualmente na PUCSP), Luiz Antônio Marcuschi (UF de Pernambuco) e Ataliba Teixeira de Castilho (UNICAMP, depois USP). Os três pesquisadores compreenderam a importância do estudo e do conhecimento da Língua Falada para compreender com maior inteireza a natureza do fenômeno lingüístico (sobretudo os processos de estruturação de enunciados e textos) e a dimensão interacional da língua. Além disso, os três autores notabilizam-se pela excelência dos trabalhos publicados e, também, pela capacidade de aglutinar grupos de pesquisadores: o Prof. Dino, Projeto NURC/SP (Norma Urbana Culta/São Paulo – Núcleo USP); o Prof. Marcuschi, o grupo da UFPE; o Prof. Ataliba, o Projeto “Gramática do Português Falado”, que congregou pesquisadores de universidades de vários Estados. Acrescente-se que o desenvolvimento dos estudos de Língua Falada foi propiciado pela publicação da transcrição dos inquéritos do Projeto NURC, até então não divulgados e subutilizados. Esses materiais começaram a ser divulgados por iniciativa do Prof. Dino Presti, que reuniu um grupo (formado sobretudo por seus orientados) para transcrever gravações do projeto NURC/SP.
Os
trabalhos desenvolvidos a partir da iniciativa dos três pioneiros permitiram
compreender as características da língua falada (o planejamento local, o envolvimento
entre os interlocutores) e determinar os elementos e processos que lhe são
próprios ou que nela passam a ter características próprias (marcadores conversacionais,
correções, paráfrases, inserções parentéticas, truncamentos). O importante
é que a língua falada passou a ser estudada por si, em suas características
identificadoras, e abandonou-se a tendência inicial do confronto com a escrita.
Letramagna: Quais as tendências mais recentes no estudo da interação verbal?
Galembeck: A ciência cognitiva, em sua formulação mais recente, admite que não existem barreiras entre os fenômenos internos à mente (as operações mentais) e os fenômenos externos a ela. Essa consideração decorre do fato de o ser humano ser histórica e socialmente situado a interagir com seus semelhantes e com o mundo que o cerca.
A partir dessa postulação, a Lingüística Textual passou a considerar que existe uma continuidade entre o texto e o contexto, assim entendidas as formações discursivas de uma cultura. O sentido não está apenas no texto, mas só passa a existir quando os referentes textuais são inseridos no contexto.
De
acordo com essa perspectiva, o ser humano é ativo e interativo, e está colocado
no centro do processo de produção e recepção de texto, pois ele cria (ou recria)
o sentido a partir de seus conhecimentos e experiências. Ao produzir um texto
escrito ou falado, o ser humano tem a consciência de que é preciso efetuar
um enquadre e delimitar, dentro do contexto mais amplo, o enfoque em que irá
se basear. Ainda na produção, cabe ao produtor expandir o contexto, por meio
de processos discursivos variados (exemplos, explicações, comentários, por
exemplo).
Já
na recepção, o leitor/ouvinte insere as informações textuais nas suas formações
discursivas, ou seja, ele tem a capacidade de criar um contexto no qual as
informações veiculadas possam ser inseridas.
O
ser humano está agora colocado no centro do processo de produção/recepção
de textos e da criação de significados, e isso o torna necessariamente e dinâmico
e capaz de criar novos contextos. E essa dinamicidade afasta qualquer idéia de assujeitamento
ao inconsciente e às formações discursivas da sociedade. O ser humano é um
autor real, é o agente da criação de significados e contextos, e não meramente
um repetidor do que já foi dito.
Desse
modo, a contribuição mais recente dos estudos de interação é a valorização
do contexto a consideração de quer o texto é o local de interação e criação
de significados e, principalmente, o papel central do ser humano nesse processo.
Letramagna: Qual a linha divisória entre lingüística e pragmática,
no que diz respeito à perspectiva teórica?
Galembeck: As teorias lingüísticas tradicionais (o estruturalismo
e a gerativa) não levam em conta o uso: para o estruturalismo importa descrever
o sistema lingüístico (sistema lingüístico e regras de combinação dos signos),
ao passo que a Gerativa busca descrever as operações (transformações) que
balizam o percurso entre a estrutura de base e a estrutura superficial. De
acordo com essas teorias, o uso (fala e desempenho) estaria situado fora da
descrição lingüística.
A
partir da década de 60, começaram a surgir algumas teorias que buscavam descrever
não só o sistema lingüístico em si, mas o que as pessoas fazem com a língua
e como usam as estruturas lingüísticas para obter certos efeitos de sentido
e agir sobre o outro. As mais difundidas dessas teorias são a Teoria dos Atos
de Fala e a Teoria da Atividade Verbal.
O
modelo mais recente da Lingüística, o Funcionalismo, não abandona a descrição
formal, mas incorpora decisivamente o uso, e situa como finalidade precípua
da língua é a interação entre os seres humanos. A Análise da Conversação e
a Lingüística Textual, por sua vez, centram-se igualmente no uso, mas tomam
como objeto de análise e texto (na AC, apenas o texto falado), e ele passa
a ser considerado o local da interação e da criação de significados.
Com
isso, a Lingüística insere-se numa grande Pragmática, ou mesmo constitui o
elemento central da Pragmática, e nela o ser humano interativo acaba por constituir
o elemento nodal.
Já
a Semiótica discute os signos, não apenas os signos verbais, mas também os
gestos, expressões faciais, imagens, cores, vestuário. Além disso, a Semiótica
considera o uso dos signos, e isso a aproxima da Lingüística Funcional e da
Pragmática.
Pode-se
admitir que a Pragmática, a Semiótica e a Lingüística constituem três círculos
concêntricos. A Pragmática é o maior e abrange os outros dois.
Letramagna: Quais
os conceitos mais importantes para os pesquisadores trabalharem com a interação
face a face?
Galembeck: Cabe esclarecer, inicialmente, que a interação face-a-face
não difere intrinsecamente das demais formas de interação verbal, sejam elas
faladas ou escritas. Com efeito, em todas essas formas há um tópico (assunto)
em andamento e cria-se um contexto comum partilhado pelos ouvintes/leitores, e sem o tópico claramente acessível e inserido
nesse contexto comum, não pode haver interação entre os participantes do ato
comunicativo. Além disso, todas as formas de interação realizam-se por ações
(verbais e não-verbais), finalisticamente orientadas.
A
particularidade da interação face-a-face é o fato de o “outro”, o(s) interlocutor(es)
serem reais e estarem co-presentes, na mesma situação enunciativa. Essa co-presença
torna a interação face-a-face particularmente dinâmica, sobretudo porque os
ouvintes não são passivos, mas manifestam reações que o falante não pode deixar
de levar em consideração. O falante e o ouvinte são igualmente ativos e co-participativos,
mas o são de modo diverso.
Essa
co-participação torna a construção do tópico e do contexto comum partilhado
particularmente dinâmica. A partir das reações dos interlocutores, o tópico
pode ser redirecionado, suspenso ou abandonado, desde que o falante sinta
inabilitado a desenvolvê-lo ou verifique a desatenção e o desinteresse do
interlocutor. A suspensão ou o redirecionamento
do tópico, ademais, podem ser efetuados pelo interlocutor, por meio
de perguntas e outras formas de intervenção.
Na
construção do contexto comum, o falante procedimentos discursivos variados (paráfrases e
inserções parentéticas), empregados com a finalidade de esclarecer ou explicitar
o tópico em andamento.
Em
suma, o importante a considerar na interação face-a-face (sobretudo em diálogos
simétricos) é o dinamismo que decorre da co-presença dos interlocutores.
Letramagna: O senhor considera que, num plano macro-textual, houve mudanças quanto
às estratégias discursivas nos últimos anos?
Galembeck:
O assunto é complexo, e uma resposta abrangente deveria considerar os diversos
gêneros textuais e formas de interação (verbais e não-verbais). Em todo caso,
assistiu-se no século XX, ao surgimento de gêneros híbridos, nos quais concorrem
diferentes linguagens. É o caso das narrativas cinematográficas, nas quais
interagem, de forma dinâmica, o verbal (diálogos), a mímica, o visual e o
fundo musical. Em revistas ilustradas - sobretudo a partir da década de 50
– combinam, de forma produtiva, a imagem e o texto escrito: a imagem e o texto
formam um todo, e a informação ganha vivacidade e força. Na música
popular, a partir de 1930 (com Noel Rosa), houve uma integração entre o verbal
(a letra) e a melodia. A letra deixou de ser um simples poema musicado, para
formar um todo com a melodia. Pode-se considerar, pois, que romperam-se
as barreiras entre as diferentes linguagens, e o resultado foi uma participação
maior do recebedor da mensagem.
Essa
integração entre as diferentes linguagens já ocorria em épocas anteriores,
mas era restrita a uns poucos gêneros, como o teatro, a ópera, a dança. No
século XX, essa integração generalizou-se, por meio do surgimento de formas
híbridas, como os já citados jornalismo ilustrado e cinema. Aliás, mesmo os
textos jornalísticos escritos revelam uma preocupação com a apresentação gráfica,
por meio de um título atraente, de medalhões com os trechos que o autor e
o editor desejam ressaltar, de gráficos.
Acrescente-se,
em forma de conclusão, que a multimídia (confluência de várias linguagens)
não significa um empobrecimento na capacidade de o ser humano criar representações
e compreender o mundo que o cerca. Muitos afirmam que apenas por meio da linguagem
verbal o ser humano pode estruturar representações do mundo, porém essa assertiva
não é verdadeira, pois a conjunção de várias linguagens torna a interação
mais viva e dinâmica. A linguagem verbal é, sem dúvida, a melhor forma de
representação, porém se enriquece quando associada a outras representações.
Letramagna: É possível correlacionar os bate-papos pela Internet com as conversações
face-a-face? As características do diálogo estão presentes nessa forma de
interação?
Cabe
considerar, inicialmente, que fala e escrita não constituem formas de realização
opostas e irreconciliáveis, ao contrário, trata-se de formas complementares
e entre elas existe uma relação de continuidade. Desse modo, fala e escrita
podem ser encaradas em dupla direção: como forma de realização e como concepção
discursiva. Um discurso no júri, por exemplo, é realizado oralmente, porém
é concebido como se fora um texto escrito. Já os bate-papos pela Internet
constituem de realizações escritas, com uma concepção oral e dialógica.
Os
chats, embora realizados por escrito, apresentam-se como diálogos: neles
se verifica a alternância nos papéis de falante e ouvinte, que são necessariamente
transitórios, assim como são colocados turnos individuais para falantes individuais,
e prevalece o princípio “fala um por vez”. Aliás, esse é o princípio básico
do diálogo, e as duas situações em que nele a interação entra em colapso são
o silêncio prolongado ou a fala simultânea.
A
troca de falantes tende a ocorrer em pautas preferenciais (os chamados lugares
relevantes para transição) e também há o assalto ao turno ou a invasão
da fala do interlocutor. Esse último caso ocorre quando o ouvinte antecipa-se
e intervém fora dos pontos adequados para a transição.
Outras
características da língua falada presentes nos chates
são as marcas de hesitação (denotadoras do planejamento
local), os marcadores de envolvimento do ouvinte (veja, olhe),
as marcas de subjetividade e intersubjetividade (verbos e pronomes na segunda
pessoa), recursos para assegurar a manutenção da interação e a construção
de um contexto comum partilhado (repetições, paráfrases,
parênteses de esclarecimento.
Devem
ser mencionados, enfim, a linguagem informal, a expressividade (decorrente
da tensão que caracteriza o diálogo), as abreviaturas, os emoticons.
Esses traços, ao lado dos já citados, reforçam o que se disse: as interactantes
comunicam-se por escrito, mas o texto que elaboram traz as características
da fala.
Letramagna: Que leituras o senhor recomendaria para um iniciante em estudos de Língua
Falada e Interação Verbal?
Galembeck: Recomendo, inicialmente, uma coletânea organizada pelo Prof. Dino Preste: Análise de Textos Orais (Ed. Humanitas, de São Paulo). Outras obras são:
1.
Luiz Antônio Marcuschi: Análise da Conversação (d. Ática) e Da fala para
a escrita (ed. Cortez).
2.
Ataliba Teixeira de Castilho: A língua falada no ensino de português (e. Contexto).
3.
Leonor L. Fávero, Maria Lúcia da Cunha V. de O. Andrade e Zilda G. de Aquino:
Oralidade e letramento (Ed. Cortez).
Será útil também consultar as obras da série “Projetos paralelos” (Projeto NURC/SP) e os volumes da “Gramática do Português Falado”.