LUIZ ANTONIO DA SILVA
Um Professor para ninguém colocar defeito
Nossa
revista eletrônica Letra Magna tem imenso prazer e sente-se honrada em contar
com a entrevista deste conceituado catedrático, Prof.
Dr. Luiz Antônio da Silva. Muito querido pelos seus pares da USP e amado
pelos alunos da Graduação, além de bastante disputado pelos Mestrandos e Doutorandos
da Pós-Graduação. Convidamos você a conhecer um pouco mais deste homem simples
e generoso em compartilhar conhecimento. Sempre ativo e
dinâmico, conta com bagagem acadêmica bastante peculiar, como poderá
ser visto na entrevista abaixo.
LM - Professor, fale resumidamente
sobre sua trajetória acadêmica.
LAS - Formei-me
nos idos de 1975, em Letras Clássicas. Fiz o curso básico de Português,
Grego e Latim. Naquela época, minha grande paixão acadêmica era grego.
Pretendia fazer Mestrado nessa área, mas, talvez, a falta de oportunidades
levaram-me ao desânimo.
Depois de formado, tive oportunidade
de seguir carreira acadêmica na área de Língua e Literatura Latina,
mas a frustração com os estudos helênicos me levaram a desistir. Com
isso, envolvi-me em atividades profissionais no ensino Fundamental e
Médio. Passei no concurso para o Magistério Estadual e fui contratado
para dar aulas no Colégio Bandeirantes. Essas atividades docentes tomavam-me
muito tempo, por isso abandonei, temporariamente, o projeto de vida acadêmica
universitária.
Depois de 10 anos de magistério
no Ensino Fundamental e Médio, fiz uma séria revisão em minha vida profissional,
o que me levou a voltar aos bancos da universidade, como aluno de Mestrado.
Fui aprovado em uma dura seleção para Mestrado na Área de Filologia
e Língua Portuguesa, tendo como orientador
o Prof. Dino Preti.
Creio que iniciei meu período
de Pós no momento certo. Eram os idos de 1986. A Análise da Conversação
(AC) estava entrando no Brasil por meio do Prof.
Marcuschi e da equipe do projeto NURC/SP,
coordenada pelo Prof. Dino Preti. Foram momentos
de intensas reuniões científicas em que mergulhávamos nos textos sobre
a AC. Fruto desse período, foram as primeiras
publicações da equipe do NURC/SP. Tive o privilégio
de discutir com pesquisadores sérios e experientes, o que me deu um
excelente suporte teórico para prosseguir na carreira acadêmica.
Minha primeira experiência
no Ensino Superior foi na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras
de São Bernardo do Campo, como professor de Língua Portuguesa e Literatura
Brasileira. Isso tudo aconteceu no período do Mestrado.
Desenvolvi um projeto sobre
os marcadores do ouvinte, aquelas partículas, muitas vezes, ignoradas
pelas gramáticas normativas e que são fundamentais em uma conversação,
especialmente, para manter a interação entre falante e ouvinte: "uhn", "uhn uhn", "sim", "né?",
"sabe?", "entende?", etc.
Em 1991, prestei concurso
para uma vaga de docente na área de Filologia e Língua Portuguesa. Assumi
no ano seguinte e continuo a atuar na FFLCH da USP até hoje. Com isso,
abandonei, inicialmente, o magistério oficial e, depois, o ensino particular.
Esse tempo no Ensino Fundamental e Médio deu-me um grande suporte para
o projeto deDoutorado.
Já como professor da FFLCH/USP, ingressei no Doutorado,
tendo como orientador o Prof. Dino Preti.
É claro que continuei a fazer parte do Projeto NURC/SP,
aliás, desde 1986, faço parte dessa equipe, que tem produzido
textos teóricos e práticos de alto nível. No Doutorado, iniciei meus estudos sobre o discurso de sala de aula
e sobre questões relativas à polidez. Até hoje, ainda tenho desenvolvido
projetos sobre essas questões.
LM - Quais são os trabalhos de sua autoria que
considera como mais importantes ou que mais contribuíram para
o desenvolvimento da Análise da Conversação no Brasil?
LAS - Meu primeiro trabalho significativo foi desenvolvido em parceria com
dois pesquisadores, também colegas da Usp na época: Paulo Galembeck e Margarete
de Miranda Rosa. Escrevemos o primeiro trabalho, em língua portuguesa,
específico sobre a questão do turno conversacional,
publicado em 1990. Já que você insiste em citar mais trabalhos,
menciono um que escrevi sobre FORMAS DE TRATAMENTO, publicado em 2003
sob o título "Tratamentos Familiares e referenciação
dos papéis sociais". Ainda outro, publicado em 2005, "O diálogo
professor/aluno na aula expositiva". Também, quero
mencionar uma coletânea de ensaios, publicada
pela Editora Globo em 2005, A LÍNGUA QUE FALAMOS. PORTUGUÊS:
HISTÓRIA, VARIAÇÃO E DISCURSO.
LM - A partir de suas pesquisas quais
são as mudanças mais interessantes e marcantes nas formas de tratamento
em nossa língua?
LAS - As mudanças mais significativas
nestes anos todos de experiência no Magistério dizem
respeito às influências teóricas tanto da Sociolingüística, com a questão
das variações lingüísticas, como da Análise da Conversação, com a quebra
do preconceito em relação à língua falada.
LM - O senhor acha que o aumento assustador
do uso dos meios digitais (computadores, jogos eletrônicos, bate-papos,
comunidades virtuais) pode interferir significativamente na conversação
"culta"?
LAS - Como já me referi às influências
benéficas dos estudos da Sociolingüística, não posso deixar de dizer
o óbvio: a língua é um organismo em constante mudança e variação. Dessa
forma, cada geração, cada época, cada segmento
tem suas especificidades. Assim, não podemos ignorar as influências
que a tecnologia exerce sobre os fatores lingüísticos. O grande erro nessas novidades todas é ignorar
os gêneros e a adequação desses gêneros. O que era "culto"
na minha juventude pode ser considerado "arcaico",
por isso o termo "culto" precisa ser bem entendido e adequado
à época contemporânea. Com isso, não quero
dizer que devemos falar e escrever no estilo "nóis
vai, nóis fica", mas quero dizer que
posso continuar a falar e escrever bem, empregando uma linguagem atual,
sem, necessariamente, utilizar um estilo camoniano, para exagerar.
LM - A maior parte de sua obra publicada
diz respeito ao assunto "polidez lingüística"
na conversação? Poderia nos falar se, no Brasil, há muitos grupos estudando esse aspecto lingüístico ou ainda
está bastante restrito aos EUA e Europa?
LAS - Meus projetos atuais abrangem
a Sociolingüística Interacional e a Análise da Conversação, por isso
sempre me reporto às questões relativas à "polidez lingüísticas",
seja no âmbito do discurso de sala de aula, seja no âmbito das formas
de tratamento. Desde que minha inclinação sempre foi para os estudos
literários (durante muito tempo fui professor de Literatura), dediquei-me
a pesquisar sob a ótica social, por isso meu percurso acadêmico enveredou
pelos caminhos da Sociolingüística e da Análise da Conversação.
LM – Prof.
Luiz Antônio, sabemos que seu tempo é muito exíguo e agradecemos demais sua
colaboração. Esperamos contar sempre com sua participação em nossa Revista.