PLÍNIO ALMEIDA BARBOSA
Por Adail Sobral
Professor associado do Departamento
de Estudos da Linguagem da Universidade de Campinas (UNICAMP), onde é responsável
pelo Grupo de Estudos de Prosódia da Fala. Tem formação em Engenharia
Eletrônica e Lingüística, com ênfase na área de Fonética experimental, atuando
principalmente na análise e modelamento dinâmicos da
prosódia da fala, prosódia experimental, teoria de sistemas dinâmicos e de
osciladores acoplados, bases cognitivas do ritmo da fala, ciências da fala e da
linguagem. Tem mais de 40 publicações em periódicos e anais
de congressos nacionais e internacionais. É autor de "Incursões em
torno do ritmo da fala" (Campinas: Pontes).
LETRAMAGNA: Qual a
principal contribuição da fonética para os estudos lingüísticos?
PAB: A investigação científica da forma pela qual os sons da gramática são
produzidos e percebidos numa ou em várias línguas. A fonética interessa-se
particularmente pelos aspectos dinâmicos da produção e percepção da fala, a
primeira desde o planejamento da articulação até sua efetiva execução; a
segunda, provavelmente envolvendo a simulação dessa mesma produção com a
finalidade de prever o comportamento comunicativo do sujeito. Pelo menos desde
a metade dos anos 1970, com o advento do computador pessoal e com o uso
sistemático de técnicas de estatística inferencial, a
fonética pôde passar da descrição dos sons das línguas para o modelamento matemático-computacional dos mecanismos que
subjazem articular e recuperar padrões acústicos e articulatórios do falante.
LETRAMAGNA: Qual a principal
contribuição da fonologia para os estudos lingüísticos?
PAB: O estudo sistemático da gramática do som, isto é, dos contrastes sonoros e
das formas como essas unidades contrastivas podem ser combinadas numa mensagem qualquer numa língua específica.
Também a fonologia desenvolveu-se não apenas para mostrar a complexidade estrutural
da organização dos padrões sonoros, como também para ressaltar a importância da
avaliação comparativa de formas alternantes que seriam ótimas ou sub-ótimas em algum sentido, bem como para incorporar
aspectos probabilísticos e operações não-padrão da computação simbólica nas
chamadas Fonologias probabilística e computacional.
LETRAMAGNA: Pode-se dizer que a
fonologia "incorpora" dados físicos que a fonética
"registra"? Por quê?
PAB: Não, ao meu ver. Trata-se em
primeiro lugar de uma discussão epistemológica sobre o papel da dicotomia corpo/mente nessas duas disciplinas, pois, de um lado, quem
diz "incorpora" pressupõe o corpo, considerado excluído dos estudos
fonológicos por estar submetido às leis da Física; e, por outro lado, quem diz
"registra" pressupõe memória, embora física, tradicionalmente
associada à mente. Se quisermos evitar a dicotomia, que traz sérios problemas
para a relação entre fonologia e fonética, pela incongruência habitualmente
atribuída a esses dois pólos, deve-se antes: (1) assumir que a fonética se
ocupa dos aspectos dinâmicos da produção e percepção sonora, sem negligenciar o
inventário de contrastes sonoros, e (2) assumir que a fonologia ocupa-se do
inventário (eixo paradigmático) e organização sintagmática (especialmente fonotaxe) das unidades sonoras.
LETRAMAGNA: Como se
relacionam os padrões sonoros e as variações individuais de
realização quanto ao reconhecimento coletivo de seqüências sonoras?
PAB: O ouvinte que fala a mesma língua
que o falante deve ser capaz de reconhecer padrões gerais de movimento através
da comparação entre as informações visio-acústicas
que lhe chegam e o conhecimento sobre a produção de seqüências sonoras da
língua compartilhada. Esse reconhecimento não necessita da realização homogênea
das unidades sonoras. Por exemplo, a realização de uma fricativa bilabial
sonora em fala rápida em português brasileiro será, normalmente, associada a um
percepto de oclusiva bilabial sonora, [b], por conta
da intenção gestual indicada pelo falante (ao deslocar seus lábios no sentido
do fechamento e produzir um efeito acústico que tem propriedades compartilhadas
com a oclusiva), da inexistência de fricativas bilabiais em português
brasileiro numa fala cuidada ou lentificada, da comparação
do trecho sonoro com itens lexicais candidatos no léxico mental. Todos os
falantes adultos de uma mesma língua sem dificuldades maiores de comunicação
são capazes de reconhecer essas intenções gestuais apesar da variação inter- e inter-individual.
LETRAMAGNA: A
gramática influencia a variação fonética? De que modo?
PAB: Sim, todos os componentes lingüísticos podem influenciar a variação
fonética, pois o ato de comunicar-se envolve o uso de informações de vários
níveis e em graus distintos dependendo da situação específica. Para dar um
exemplo de natureza sintática, ou pelo menos da projeção desse tipo de
conhecimento sobre o eixo sintagmático, a simples ordem das palavras basta. Uma
palavra funcional proclítica resiste mais à redução de sua vogal que uma palavra
enclítica, apesar da menor freqüência nessa última posição: compare "se
derramou" com "derramou-se". Não é fácil perceber que o som de
[i] da primeira é mais audível, e pode ser mesmo bem saliente, em
comparação com o som equivalente da outra expressão? Claro que esse tipo de
comportamento está relacionado com a prosódia, que integra as organizações
rítmicas e entoacionais da fala. É pela via da
prosódia que a sintaxe influencia a variação fonética intra-
e interindividual.
LETRAMAGNA: Como a
variação fonética se dissemina na coletividade e é internalizada pelo
falante?
PAB: A sociolingüística é a disciplina que estuda bem o fenômeno. Tendo em
vista a importância desse tipo de investigação, hoje se fala mesmo de sociofonética como subdisciplina.
A variação se disssemina pelo contato e pelo
prestígio de indivíduos de uma comunidade sobre um ou mais indivíduos. Às vezes
somos conscientes que estamos variando (como uma criança que evita seu /r/
caipira em "carta" ou seu iode em "arro(i)z" para não ser estigmatizada pelos colegas de uma
região que realiza menos freqüentemente tais sons ou não os realiza), outras vezes
nem percebemos (como um falante de Sorocaba, que realiza o /t/ diante de /i/ de
forma semelhante ao /t/ pernambucano nesse contexto - tia como teia -, ao
mudar-se para Campinas, acaba falando como boa parte de nós, palatalizando-o).
Quando a variação se estabiliza, está internalizada, embora uma forma conviva
com formas alternantes anteriores.
LETRAMAGNA: Qual
a sua avaliação do estado atual dos estudos fonéticos/fonológicos
no Brasil?
PAB: Gostaria que o interesse pelos mesmos fosse maior. Que evoluíssem para se
constituírem em estudos fônicos em equipes com pesquisadores com formação
inicial em fonologia e em fonética contribuindo e deixando-se interrogar uns
pelos outros. Gostaria que houvesse maior interesse (e investimento humano e
material e didático) pela investigação experimental, incluindo interesse por
disciplinas como estatística, cálculo e programação.
Gostaria, por outro lado, que houvesse maior interesse pela investigação em
ciências humanas, pelo conhecimento acumulado nas ciências da linguagem em
particular, por entender como os componentes gramaticais emergem, se
auto-organizam, funcionam e interagem entre si. Cada um dos lados, se a
carapuça serviu, deve estar se reconhecendo. Mas não é somente uma característica,
embora talvez em menor grau, dos estudos no Brasil.